sexta-feira, 6 de maio de 2011

Brasil, um país do futuro. Stefan Zweig


De novo Zweig, mas por primeira vez Brasil!

Até agora nunca tinha falado do Brasil no blog, e acho um fantástico pretexto ter lido o livro de Zweig para que ao menos alguns de todos aqueles xoques, sensações e surpresas, que em ano e meio se me presentaram em avalancha, e que aos poucos se foram filtrando até se transformar num sedimento de impressões e convivências, agora se expressem com a vantajosa parceria do livro do meu querido escritor.

 O livreiro, com sorriso juvenil e mordaz, enquanto colocava o livro numa sacolinha e me entregava, preguntou: "E quando vai chegar este futuro? Faz anos que vendo este livro!"

 Equiloquá! O tenso arco marcado por Zweig entre o passado histórico onde nasce seu retrato de Brasil e o presente do escritor (1941) tem uma difícil desembocadura. E onde é que exatamente convergem as trajetórias projetadas para o futuro de Brasil? é no nosso presente, 70 anos depois?

 Zweig desenha a alma brasileira em traços suaves, delicados, de contorno sonhador e gentil. Tudo soa a bossa nova, alegria e melancolia. São pedaços da àlma as letras das canções mil vezes cantadas por cada brasileiro. Cómo sino, quando cordialmente um pregunta: "Tudo bom?", que seria o equivalente ao "Qué tal?" em espanhol, as respostas são tão increívelmente lindas como "Tudo jóia, tudo alegria!", "Maravilha!", "Beleza!"... ?

Assim mesmo, o virtuosismo emocional que brasileiro tem para eludir qualquer confrontação não pode mais que deixar estupefacto a qualquer europeio, ainda seja da mais boa índole. Hoje mesmo um carro quase atropelou uma menina que eu tinha em frente, minha sangue esquentou e briguei com motorista, mas fiquei totalmente desarmada quando olhei para menina e com um sorriso encantador e encolhendo os ombros falou: "Não é fácil não".

O povo brasileiro recusa a guerra e a briga, em realidade é instintivamente pacifista e de natureza cordial.

Toda essa mistura de inteligência zem, mais o genuíno ralentamento do tempo vital, que Zweig atribui ao clima, mais o optimismo derrubador que só da que ciúmes, se manifesta claramente num monte de frases que um escuta diversas vezes ao longo do dia, e que em sua ingenuidade de genialidade implícita provocam um sorriso de teus lábios na maioria das vezes, e quando não um pequeno desespero. Frases como: "Pode deixar, fique tranqüilo", "faz parte", "calma aí" e incluso conceitos, para mim novos, como "devagar".

 Eu não sei se já estamos no futuro imaginado por Zweig nem se é como ele tinha pensado. Também não sei se o clima de optimismo, alegria e pujança que agora se respira no ar de Brasil é já intrínseco na sua evolução como pais jovem, de constantes mudanças e que cresce e cresce rapidamente ou é uma il·lusão nascida da esperança do momento. O que si que da para perceber é que a engranajem que vai ficar em pé o gigante não para, e que o São Paulo e o Rio do Zweig já não são o mesmo. A modernidade e o desenvolvimento está passando como tsunami sobre estas cidades, enquanto essência da alma brasileira surfeia. Mas, a pesar de toda mudança, tão vigente como o dia que Zweig escreveu "Quem realmente é capaz de sentir o Brasil viu beleza suficiente para a metade da vida."

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O mundo que eu vi. Memorias de um europeo. Stefan Zweig.




Se algum escritor me acompanha desde à adolescência, sem dúvida nenhuma posso falar que esse é Stefan Zweig. Ele já estava na biblioteca dos meus pais antes que eu nascesse, e quando meus queridos livros de "Barco de Vapor e Elige tu propia aventura" deixaram de saciar minha sede literária, ele chegou como sopro de novas emoções, mostrando com sua narrativa os meus primeiros abismos profundos e tetos altos na literatura, destripando para mim as entranhas dos seus personagens desesperados, apaixonados, turbados... e iluminándome generosamente com sensibilidade tremendamente artística "momentos estelares da humanidade".

Depois dele apareceram outros, e Zweig ficou só na lembrança do acordar de meu amor pela literatura, e poderia dizer que durante anos ficou na sombra dos recém chegados. Felizmente, nestas últimas semanas, resgatei da gaveta, e com uma renovada admiração li "O mundo que eu vi".


No Mundo que eu vi segue sendo Zweig quem abre em canal o personagem para mostrar suas menores e maiores vergonhas, suas debilidades, seus transtornos, suas belezas escondidas... Este personagem, que no livro nasce são, lindo e orgulhoso vai virando no decorrer da história terrivelmente caótico e inumano até chegar a alienar se por completo. Esta Europa da primeira metade do século XX agoniza baixo à pluma do escritor, mas, para nossa tristeza, este não é um personagem de ficção, é um personagem que sente e que é de verdade, e que é nosso passado. Zweig agoniza com ele!


O narrar de Zweig é um testemunho de exceção, de luxo. É a perspectiva de um intrépido escritor que viajou por tudo o mundo, ganhando assim altura em seu olhar, e que lá onde fosse podia contar com contertúlios, o mais que isso, amigos, da talha de Freud, Dalí, Toscanini, Gorki, Rilke, Mann, Busoni, Strauss, Reger, Rodin, Joyce e um sim fim mais de nomes que marcaram o devir da arte e do ser humano com tinta inapagável.

Vida íntegra à de Zweig, onde, em suas próprias palavras, o trabalho espiritual era sua maior alegria e o bem mais prezado nesta terra era à liberdade pessoal. Quando foi despiedadamente destruída esta liberdade pessoal pela Europa doida de aquele tempo, ele não pôde mas que relatar o ontem ante o estupor do agora.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Vai, vai bambina vai...

Francesca Woodman, paradigmática criatura de pele blanca e corpo delicado, protagoniza os escenários de mundos insinuantes, misteriosos e alegóricos imaginados e estructurados em sua jovem e sensível rede de pensamentos e materializados a través do objetivo de sua câmara. Menina que se revela provocadora ao mesmo tempo que se esconde na textura de uma parede. Imagem de juventude e inocencia jogada em quartos decadentes e decrépitos, mas não como um grito de desespero, se não mais como um presente da vitalidade artística de quem quer desgranar em branco e preto às contradicções da vida. Olhar à figura de Francesca, difuminada, sem rostro, movida, desnuda, entrelaçada num àrvore, encolhida, desafiante, é como escutar às própias pulsões de um coração, imagino que de seu inquietante coração.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Um prazer conhecerte Steve




Esta vez vou deixar que às imagens falem,
que o menino escape emtre as ruas azuis e eu fique.
Esta vez, só esta vez,
aguardarei pacientemente com os pescadores
e olharei seu dormir inocente.








quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sublinhando ao sublime Bachelard


Quanto amo sublinhar os livros...

Eu sei, e quase compreendo, que haverá muitos detractores. Mas ante frases e mais frases inspiradas e inspiradoras no devenir de um livro, eu não consigo passar página sem iluminar esses trexinhos com meu super-amarelo florescente!

Ainda mais em português onde sublinhar se parece tanto a sublimar...

Olhem esta primeira passagem de A Poética do Devaneio, de Gaston Bachelard, e falem depois sem poderiam censurar esse meu foco de luz:

"Nas horas de grandes achados, uma imagem poética pode ser o germe de um mundo, o germe de um universo imaginado diante do devaneio de um poeta."

O preto e branco de estas duas linhas, uma vez as focamos com nosso amarelo e lemos e relemos mais uma vez, nos levam frente aos nossos poetas mais amados e nos abrem as portas a imaginar seus pensamentos poéticos trepando como hera sobre ar. Hera que atinge terreno aquoso e fértil, onde o resto de mortais só chegamos levados da sua mão generosa, e onde se nos permite escutar os rumores de esse sim fim de mundos sonhados pela alma sensível e sabia dos poetas.

Lindo devaneio sobre o devaneio ao que induz Bachelard!

E o devaneio amoroso? o ensalçamento do amor pelas palavras? a exaltação do coração feito poesia? Deixem-me sublinhar também este pedacinho, por favor:

"Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios. O romance por cartas exprime o amor numa bela emulação das imagens e das metáforas. Para dizer um amor, é preciso escrever. Nunca se escreve demais.... O amor nunca termina de exprimir-se e se exprime tanto melhor quanto mais poeticamente é sonhado.... as grandes paixões se preparam em grandes devaneios. Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade."

Com meu amarelo, me uno à reivindicação Bachelardiana do devanear idealizante, embelecedor... Amor epistolado onde buscamos às mais belas palavras para o ausente, onde o anelo se transforma em poesia, onde o sonhador se poetiza. Hoje em dia, o amor epistolado viaja mais comummente por mensagens de celular de 140 caracteres em Espanha, de 70 caracteres em Brasil. Minha capacidade de síntese agradece haver namorado em Barcelona ;)

A Poética do Devaneio é um verdadeiro mestre no arte de sonhar ao qual sublinhei muitas mais vezes das dois que confessei. Agora é tarde de mais, mas espero em alguma outra ocasião seguir falando de aqueles maravilhosos fragmentos do livro que emanam luz própria e aos quais eu só faço que emmarcar com um toque de tinta florescente!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

México lindo!!


7 dias em México! Taquitos, quesadillas, burritos, tortitas, molecito... tudo bem picosito... tequilitas, mañanitas... isto também é arte e cultura, não é? mmmmmmhhh... quê delicioso quando arte e cultura se comem, se bebem, se cheiram...!!!! Magnífico!!! Só têm um lado ruim, que é a sua instalação em nós :(
Também uno não consegue desinstalar da sua retina, da sua pele... a experimentação do Teotihuacan. Só imaginem que foi chamado assim pelos méxicas porque significava "lugar onde foram feitos os Deus", é difícil falar alguma coisa mais que isto. É uma herança imponente que chega a nós exalando uma potente espiritualidade, sabedoria e sensibilidade de uma cultura da qual nem se sabe o nome nem etnia, mas que um acaba amando!
O Museu de antropologia, pedagogia fascinante! Consegue fazer um recorrido do homem pré-histórico da África, da suas migrações, dos seus assentamentos, da sua chegada ao continente americano, da sua tremenda evolução no México, das sua ramificações em dezenas de diferentes culturas e etnias, etc, etc... até a chegada de nós, os malditos espanholes! Assombrosa, detalhada, apaixonante e tremendamente esclarecedora.
Viajamos algumas horas de carro e nos encontramos com Morelia, cidade colonial próxima ao DF, puro reflexo do lado mais lindo do nosso legado espanhol: igrejas, palácios, templos, bibliotecas, conservatórios, aquedutos... uma maravilha.
Assim como em Morelia, a mala cheia de arte europeu que trazemos com a colonização, começa a ficar a um lado com a aparição do arte propriamente mexicano que volta a renascer no século XX, do qual, dois grandes exponentes seriam Frida Kahlo e Diego Rivera.
Na casa-museu de Frida, achamos a expressão da sua obra, da sua vida. Honestamente, eu não consigo conectar com sua obra, e inclusive poderia dizer, sem que ninguém fique ofendido, que para mim é feia, que é ingrata. Mas a través dela, consigo conectar com sua vida, isto transforma minha visão e então consigo valorizar de uma outra forma sua obra e a forte significação que transpira. Para mim, parece uma ensonhadora válvula de escape do dor da sua vida, e isso se que me atinge.
Por último, não quisera deixar de mencionar os Murales de Diego Rivera que se encontram no Palácio Nacional. Coloridos e exuberantes prismas da história da México contada sem medo nem reservas e com muito orgulho e rebeldia. A grandiosidade que adquirem ao vivo é uma experiência inesquecível!
México, México lindo! Refugio de uma eternidade de tesouros! ;)

domingo, 28 de março de 2010

A poltrona escura



Trajetos breves, em quanto ao tempo se refere, mas quê viagens largos e ousados faz a imaginação de Pirandello em estes três contos que magistralmente interpreta o ator brasileiro Cacá Carvalho na peça "A poltrona escura".

A ante-sala do teatro, já em si, é uma jóia de São Paulo, a Livraria Cultura, um templo que nos abriga em muitos sentidos, e esta vez, até começo da peça. Lá, no palco, nos espera Cacá, sentado na poltrona que dá nome a obra e único atrezzo. Sem retirar telões e nenhum outro preâmbulo todo começa.

Em "Os pés na grana", o 1r conto, encontramos um homem "acabado", contemplando o vazio que deixa em ele a perda de sua mulher, o passo do tempo e a solidão da velhice. Como contraponto está seu filho, ele encarna os sapatos novos, enquanto isso, seu pai ficou relegado aos chinelos de quarto. O filho fica com a cama dobra da casa, enquanto isso, seu pai é transferido ao quartinho pequeno de atrás ("para uma melhor comodidade e privacidade" fala seu filho). Na cama, o filho estende o braço e encontra sua mulher, em quanto isso, o pai faz o mesmo e seu braço pende no vazio. Para culminar esse triste retrato, mas tratado com una comicidade maravilhosa, o pai decide ir ao parque, olhar de perto as crianças, sentir se rejuvenescer, colocar os pés na grana sem chinelos. Clímax lírico, bucólico, quase utópico, arrebatado brutalmente por uma linda garotinha que grita: "Velho porco!".

Em minha opinião, o segundo conto, "O carrinho de mão", é o melhor dos três. Nele vemos o desdobramento dum advogado em ele e a sua alma, e vemos como sua alma não reconhece seu corpo, sua vida, sua mulher, seus filhos... Sua alma não quer ser ele, não quer participar da vida de ele, não gosta de ele... Só gosta, só sente prazer, só se sente conectado com ele mesmo quando se regala aqueles desejos obscuros, recônditos, obscenos que não pode compartir com o que "representa" ser ele.

E por último, como desate total a esta embriaguez imaginativa, "O sopro". Ele nos representa a riduculez e transitoriedade da vida, a fragilidade do ser humano, a cercania da morte... Às vezes só basta um sopro. Quê passaria si controlássemos esse sopro? Se com só levar dois dedos da mão à boca e soprar matássemos? O personagem do conto descobre que governa esse poder, mas para ter certeza, ele faz as comprovações empíricas pertinentes, ele sopra a toda uma fila da platéia!

Só me resta dizer que Cacá, depois dos cálidos e extensos aplausos, falou do triste que queda uma poltrona num teatro quando ninguém ri nem chora sobre ela e a inveja que ela tem da poltrona do lado. Então, animo a vocês a ocupar todas elas, a peça e a interpretação o merecem!