Trajetos breves, em quanto ao tempo se refere, mas quê viagens largos e ousados faz a imaginação de Pirandello em estes três contos que magistralmente interpreta o ator brasileiro Cacá Carvalho na peça "A poltrona escura".
A ante-sala do teatro, já em si, é uma jóia de São Paulo, a Livraria Cultura, um templo que nos abriga em muitos sentidos, e esta vez, até começo da peça. Lá, no palco, nos espera Cacá, sentado na poltrona que dá nome a obra e único atrezzo. Sem retirar telões e nenhum outro preâmbulo todo começa.
Em "Os pés na grana", o 1r conto, encontramos um homem "acabado", contemplando o vazio que deixa em ele a perda de sua mulher, o passo do tempo e a solidão da velhice. Como contraponto está seu filho, ele encarna os sapatos novos, enquanto isso, seu pai ficou relegado aos chinelos de quarto. O filho fica com a cama dobra da casa, enquanto isso, seu pai é transferido ao quartinho pequeno de atrás ("para uma melhor comodidade e privacidade" fala seu filho). Na cama, o filho estende o braço e encontra sua mulher, em quanto isso, o pai faz o mesmo e seu braço pende no vazio. Para culminar esse triste retrato, mas tratado com una comicidade maravilhosa, o pai decide ir ao parque, olhar de perto as crianças, sentir se rejuvenescer, colocar os pés na grana sem chinelos. Clímax lírico, bucólico, quase utópico, arrebatado brutalmente por uma linda garotinha que grita: "Velho porco!".
Em minha opinião, o segundo conto, "O carrinho de mão", é o melhor dos três. Nele vemos o desdobramento dum advogado em ele e a sua alma, e vemos como sua alma não reconhece seu corpo, sua vida, sua mulher, seus filhos... Sua alma não quer ser ele, não quer participar da vida de ele, não gosta de ele... Só gosta, só sente prazer, só se sente conectado com ele mesmo quando se regala aqueles desejos obscuros, recônditos, obscenos que não pode compartir com o que "representa" ser ele.
E por último, como desate total a esta embriaguez imaginativa, "O sopro". Ele nos representa a riduculez e transitoriedade da vida, a fragilidade do ser humano, a cercania da morte... Às vezes só basta um sopro. Quê passaria si controlássemos esse sopro? Se com só levar dois dedos da mão à boca e soprar matássemos? O personagem do conto descobre que governa esse poder, mas para ter certeza, ele faz as comprovações empíricas pertinentes, ele sopra a toda uma fila da platéia!
Só me resta dizer que Cacá, depois dos cálidos e extensos aplausos, falou do triste que queda uma poltrona num teatro quando ninguém ri nem chora sobre ela e a inveja que ela tem da poltrona do lado. Então, animo a vocês a ocupar todas elas, a peça e a interpretação o merecem!

