domingo, 28 de março de 2010

A poltrona escura



Trajetos breves, em quanto ao tempo se refere, mas quê viagens largos e ousados faz a imaginação de Pirandello em estes três contos que magistralmente interpreta o ator brasileiro Cacá Carvalho na peça "A poltrona escura".

A ante-sala do teatro, já em si, é uma jóia de São Paulo, a Livraria Cultura, um templo que nos abriga em muitos sentidos, e esta vez, até começo da peça. Lá, no palco, nos espera Cacá, sentado na poltrona que dá nome a obra e único atrezzo. Sem retirar telões e nenhum outro preâmbulo todo começa.

Em "Os pés na grana", o 1r conto, encontramos um homem "acabado", contemplando o vazio que deixa em ele a perda de sua mulher, o passo do tempo e a solidão da velhice. Como contraponto está seu filho, ele encarna os sapatos novos, enquanto isso, seu pai ficou relegado aos chinelos de quarto. O filho fica com a cama dobra da casa, enquanto isso, seu pai é transferido ao quartinho pequeno de atrás ("para uma melhor comodidade e privacidade" fala seu filho). Na cama, o filho estende o braço e encontra sua mulher, em quanto isso, o pai faz o mesmo e seu braço pende no vazio. Para culminar esse triste retrato, mas tratado com una comicidade maravilhosa, o pai decide ir ao parque, olhar de perto as crianças, sentir se rejuvenescer, colocar os pés na grana sem chinelos. Clímax lírico, bucólico, quase utópico, arrebatado brutalmente por uma linda garotinha que grita: "Velho porco!".

Em minha opinião, o segundo conto, "O carrinho de mão", é o melhor dos três. Nele vemos o desdobramento dum advogado em ele e a sua alma, e vemos como sua alma não reconhece seu corpo, sua vida, sua mulher, seus filhos... Sua alma não quer ser ele, não quer participar da vida de ele, não gosta de ele... Só gosta, só sente prazer, só se sente conectado com ele mesmo quando se regala aqueles desejos obscuros, recônditos, obscenos que não pode compartir com o que "representa" ser ele.

E por último, como desate total a esta embriaguez imaginativa, "O sopro". Ele nos representa a riduculez e transitoriedade da vida, a fragilidade do ser humano, a cercania da morte... Às vezes só basta um sopro. Quê passaria si controlássemos esse sopro? Se com só levar dois dedos da mão à boca e soprar matássemos? O personagem do conto descobre que governa esse poder, mas para ter certeza, ele faz as comprovações empíricas pertinentes, ele sopra a toda uma fila da platéia!

Só me resta dizer que Cacá, depois dos cálidos e extensos aplausos, falou do triste que queda uma poltrona num teatro quando ninguém ri nem chora sobre ela e a inveja que ela tem da poltrona do lado. Então, animo a vocês a ocupar todas elas, a peça e a interpretação o merecem!











quinta-feira, 25 de março de 2010

Fahrenheit - 451 - Clássicos candentes




Os livros, tão poderosos em sua essência como frágeis em sua matéria!

Às vezes, nós nos acercamos a eles com a ingenuidade de só querer ler, mais não é tão fácil, eles terminam por fazer-nos pensar, sonhar, e incluso por empurrar-nos até ir ao encontro e escutar os rumores que falaram para o escritor em seu pensamento silencioso. E isso, numa sociedade que foge das profundidades da alma, do pensamento e das emoções, não tem outra saída que ser proscrito e condenado.

Este é o apocalíptico mundo que projeta Bradbury em seu livro Fahrenheit 451, levado ao cinema nos 66 por Truffaut. A estética futurista que encontramos no filme, em nosso olhar moderno, adquire um velo tenro e engraçado, mas o paradoxo reside em que a mensagem é plenamente atual. Essa imposição da felicidade por decreto, felicidade vácua que nos chega a través da televisão, da estereotipada imagem de família perfeita, das relações insubstanciais que às vezes alimentam nossa vida social, da falta de busca e consciência de verdades e do gregarismo que isso desencadeia... Todo isso, e mais, é corajosamente representado.

Num mundo assim, os bombeiros provocam os fogaréu com os montões de livros confiscados, e todos esquecem aqueles tempos onde os bombeiros eram queimes os apagavam. De fato, Fahrenheit - 451 é a temperatura na que arde e inflama o papel!





sábado, 13 de março de 2010

Graffitti Fine Art no MuBe



Quando falamos sobre qualquer coisa que conhecemos, que amamos, que seguimos... é tão mais fácil!!! Porque são as coisas que nos fazem vibrar, e fazendo honor ao título do blog, que nos fazem vibrar por simpatia. Elas encontram e provocam uma ressonância dentro de nós mesmos.

Sem embargo, falar sobre o desconhecido, o estranho, ou sobre aquilo que per alguma razão ou outra fica mais longe de nossa sensibilidade ou entendimento, é tarefa bem mais difícil!

Ontem assisti a exposição
Graffitti Fine Art do MuBE, e daí a minha preocupação expressada. O graffiti desde seu nascimento em New York, nos anos 70, e até hoje, mantêm esse halo de cool, moderno, transgressor, rebelde, inconformista... e se ele se pode relacionar musicalmente a algum estilo, esse é o rap ou o hip-hop. Tendo em conta que o epicentro de minhas paixãis musicais e artísticas se situa em épocas iluminadas pela luz das velas e onde as perucas empoadas é o realmente cool, se poderia dizer que me encontro numa espécie de purgatório expiando meus pecados per minha pouca renovação artística!

Passeio por éste olhando cada uma das paredes e vejo alguns
graffittis que sobressaem delas para pegar esse 3r plano onde eu me encontro, vejo também quadros tão realistas que quando uma amiga tira foto a um de eles, a imagem na câmara já não parece mais uma pintura, parece uma foto do seus feriados em Cuba...

O lugar vai se enchendo de gente, muitos bonés virados, tatuagens,
rastas, semblantes interessantes e aparências bem fashion... será que é isso o meu purgatório? Não, ainda não, falta o Dj e a promoção de Heineken de graça... Agora sim, agora já posso purificar todos meus pecados! ;)

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Mozart de Norbert Elias




Ninguém tem dúvida alguma da figura de Mozart como gênio universal. É por isso, que ainda é mais difícil afundar até achar o ser humano que se esconde no artista. Até encontrar o drama vital do artista que tenta sobreviver numa sociedade que lhe é adversa, ou quanto menos que não aceita seu afã de ser "livre".
Norbert Elias, sociólogo alemão e grande pensador do século XX, em "Mozart. Sociologia de um gênio", empreende essa dupla trilha: por uma parte, a de conhecer o Mozart humano que tem aspirações, que quer agradar à corte ao mesmo tempo em que morde sua mão, que sonha com ser um perfil de músico livre que ainda não existe como padrão, e que finalmente sucumbe e é marginado no intento; e por outra parte, a de retratar uma sociedade na que ainda é evidente a supremacia do poder da aristocracia sobre a burguesia, na qual o músico, como burguês que é, forma parte da servidão da aristocracia dentro do esquema traçado socialmente.
O livro não é uma biografia, também não uma história dum gênio nem da sua música. O livro é um reflexo, uma análise de todos os processos da vida de Mozart em sociedade, uma teia de aranha de filos entre Mozart e o mundo. E desde esta perspectiva, a obra cria em nós uma imagem muito mais poliédrica do compositor, consegue aproximar-nos ao ser humano e, de soslaio, nos proporciona um melhor e mais profundo entendimento da grandeza da sua música.