quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O mundo que eu vi. Memorias de um europeo. Stefan Zweig.




Se algum escritor me acompanha desde à adolescência, sem dúvida nenhuma posso falar que esse é Stefan Zweig. Ele já estava na biblioteca dos meus pais antes que eu nascesse, e quando meus queridos livros de "Barco de Vapor e Elige tu propia aventura" deixaram de saciar minha sede literária, ele chegou como sopro de novas emoções, mostrando com sua narrativa os meus primeiros abismos profundos e tetos altos na literatura, destripando para mim as entranhas dos seus personagens desesperados, apaixonados, turbados... e iluminándome generosamente com sensibilidade tremendamente artística "momentos estelares da humanidade".

Depois dele apareceram outros, e Zweig ficou só na lembrança do acordar de meu amor pela literatura, e poderia dizer que durante anos ficou na sombra dos recém chegados. Felizmente, nestas últimas semanas, resgatei da gaveta, e com uma renovada admiração li "O mundo que eu vi".


No Mundo que eu vi segue sendo Zweig quem abre em canal o personagem para mostrar suas menores e maiores vergonhas, suas debilidades, seus transtornos, suas belezas escondidas... Este personagem, que no livro nasce são, lindo e orgulhoso vai virando no decorrer da história terrivelmente caótico e inumano até chegar a alienar se por completo. Esta Europa da primeira metade do século XX agoniza baixo à pluma do escritor, mas, para nossa tristeza, este não é um personagem de ficção, é um personagem que sente e que é de verdade, e que é nosso passado. Zweig agoniza com ele!


O narrar de Zweig é um testemunho de exceção, de luxo. É a perspectiva de um intrépido escritor que viajou por tudo o mundo, ganhando assim altura em seu olhar, e que lá onde fosse podia contar com contertúlios, o mais que isso, amigos, da talha de Freud, Dalí, Toscanini, Gorki, Rilke, Mann, Busoni, Strauss, Reger, Rodin, Joyce e um sim fim mais de nomes que marcaram o devir da arte e do ser humano com tinta inapagável.

Vida íntegra à de Zweig, onde, em suas próprias palavras, o trabalho espiritual era sua maior alegria e o bem mais prezado nesta terra era à liberdade pessoal. Quando foi despiedadamente destruída esta liberdade pessoal pela Europa doida de aquele tempo, ele não pôde mas que relatar o ontem ante o estupor do agora.